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17 de abril de 2017

Artigo: 90 anos de Bento XVI

Este Domingo de Páscoa, dia 16 de abril, Bento XVI completa 90 anos de idade. O Papa Francisco o visitou e o cumprimentou pelo natalício e pela Páscoa.
Agradecemos a Deus pelo dom de sua longa e profícua vida; depois: a seus pais Joseph e Maria, por lhe darem uma educação esmerada, aliada à firmeza de jamais pactuar com o erro, aos seus formadores, incluindo não poucos clérigos, pela formação intelectual profunda despertada nele desde o ensino primário até o doutorado em Teologia.

Desejo, neste contexto jubiloso, relembrar, por meio da História e de testemunhos abalizados, aspectos da rica trajetória deste homem que é, sem dúvida alguma – com as concordâncias ou as discordâncias que a seu respeito se possa ter dentro do sadio pluralismo de escolas teológicas –, um ícone da Teologia dos séculos XX e XXI. Aliás, ele foi um dos jovens peritos do memorável Concílio Vaticano II (1962-1965), nele atuando muito diretamente, de um modo especial na confecção de dois importantes documentos: a Lumen Gentium (Luz dos Povos), sobre a Igreja, e Ad Gentes (Aos Pagãos), sobre a atividade missionária da Igreja entre pessoas que desconhecem a fé cristã.

Na Alemanha, sua pátria, viveu uma infância tranquila na Baviera, em meio à bela natureza, ainda que o ambiente sociopolítico fosse marcado por fortes debates entre nazistas e antinazistas. Entre os contrários ao projeto de dominação pela pretensa raça pura, de Hitler, figurava seu pai Joseph, que passou maus momentos devido à clara postura ideológica assumida.

Joseph Ratzinger, futuro Papa Bento XVI, entrou para o seminário aos 12 anos e foi um brilhante aluno, no aspecto litúrgico e intelectual, no entanto, por não partilhar das teses do nazismo e ser de família humilde viu seus estudos ameaçados, pois a família não dispunha de meios para pagar a escola e ele não podia, oficialmente, receber a bolsa de estudos por não ser filiado ao nazismo. Um professor que conhecia sua capacidade intelectual lhe conseguiu uma bolsa.

Todavia, teve de interromper os estudos para servir ao Estado com trabalho braçal obrigatório, no período da guerra, por determinado tempo. Vencida a etapa, voltou para a casa dos pais, mas a liberdade não durou muito, pois foi enviado para um quartel do qual fugiu, dado que a política hitelerista lhe era adversa. Recapturado, foi mandado a um campo de concentração, onde muito sofreu, pois lá não havia relógio, calendário ou jornal e a alimentação consistia apenas numas colheradas de sopa e um pedaço de pão. (Cf. Joseph Ratzinger: uma biografia, p. 34)

Aos dezoito anos, foi liberto, prosseguiu os estudos de Filosofia e Teologia, sendo ordenado sacerdote em 29 de junho de 1951, na catedral de Freising. Dedicou-se, então, com profundo zelo, aos trabalhos pastorais (missas, confissões, catequese...) e acadêmicos, recebendo, em 1953, o título de doutor em Teologia e, em 1957, a livre-docência. Sagrado Bispo em 28 de maio de 1977, e, num gesto raro, foi nomeado Cardeal em 27 de junho do mesmo ano. Amigo pessoal de São João Paulo II, desde longa data, foi por ele chamado para ser Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em 1981, função que ocupou até ser eleito Papa, no dia 19 de abril de 2005, escolhendo o nome de Bento XVI em honra ao abade São Bento de Núrsia, patrono da Europa.

O jornalista Carlos Alberto Di Franco afirma que na encíclica (circular) Spe Salvi, “Bento XVI desnuda a inconsistência das esperanças materialistas e faz uma crítica serena, mas profunda, à utopia marxista. Segundo o Papa, Marx mostrou com exatidão como realizar a derrubada das estruturas. ‘Mas, não nos disse como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém’. Marx ‘esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. (...) O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior. (...) Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor’”.

E continua: “Sugestivamente, o Papa evoca o falecido cardeal vietnamita Nguyen Van Thuan, que, após 13 anos na prisão comunista, nove dos quais numa solitária, escreveu Orações na Esperança. ‘Numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites de solidão’”. (Correio Popular, 25/12/11, p. A2)

O imenso legado intelectual e pastoral de Bento XVI, além do muito que já foi publicado, vem sendo editado também em espanhol pela Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), editora ligada à Conferência Episcopal Espanhola (CEE). Ao todo serão 17 volumes, contendo de 500 a 700 páginas cada um. A previsão é publicar cerca de três volumes a cada ano em sete anos, ou seja, teve início em 2012 e deverá terminar em 2018.

O primeiro volume da coleção contém os escritos a respeito da teologia da liturgia, que constitui o centro do pensamento teológico do Cardeal Ratzinger. Segundo Bento XVI, a liturgia supõe o contato com a beleza em si mesma, com o amor eterno. “Quando a liturgia está no centro da existência, tem lugar o anunciado pelo apóstolo: ‘Alegrai-vos sempre no Senhor, e repito, alegrai-vos. [...] o Senhor está próximo’ (Fl 4,4-5)”, escreveu o Bispo emérito de Roma.

Quanto ao seu modo de ser de Bento XVI, Peter Seewald afirma: “Deixou-me a impressão de um homem jovem e moderno, que não passa o tempo a girar os polegares, mas de alguém que ousa audazmente, que permanece interessado. Um mestre seguro, mas também incômodo, porque percebe que estamos perdendo coisas às quais, na verdade, não podemos renunciar”. (...)

“Deixa seu hóspede completamente à vontade. Em certo sentido, não é um Príncipe da Igreja, mas um servo da Igreja, um magnânimo, que, no doar-se, consome-se totalmente”. “Às vezes olha de modo um tanto cético. Assim, por cima dos óculos. E quando o escutamos, sentados ao seu lado, percebe-se não somente a precisão de seu pensamento e a esperança que jorra da fé; torna-se visível de modo particular, outrossim, aquele reluzir da luz do mundo, o olhar de Cristo, que deseja encontrar cada pessoa, e que não exclui ninguém”. (Luz do mundo, p. 11 e 16)

Realmente, a profunda humildade de Bento XVI pode ser vista entre tantas ações no texto preparado para comunicar sua renúncia: “Depois de ter examinado repetidamente a minha consciência diante de Deus, cheguei à certeza de que as minhas forças, devido à idade avançada, já não são idôneas para exercer adequadamente o ministério petrino. Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando. Todavia, no mundo de hoje, sujeito a rápidas mudanças e agitado por questões de grande relevância para a vida da fé, para governar a barca de São Pedro e anunciar o Evangelho, é necessário também o vigor quer do corpo quer do espírito; vigor este que, nos últimos meses, foi diminuindo de tal modo em mim que tenho de reconhecer a minha incapacidade para administrar bem o ministério que me foi confiado. Por isso, bem consciente da gravidade deste ato, com plena liberdade, declaro que renuncio ao ministério de Bispo de Roma, sucessor de São Pedro, que me foi confiado pela mão dos Cardeais em 19 de Abril de 2005, pelo que, a partir de 28 de Fevereiro de 2013, às 20 horas, a sede de Roma, a sede de São Pedro, ficará vacante e deverá ser convocado, por aqueles a quem tal compete, o Conclave para a eleição do novo Sumo Pontífice”.

Fui nomeado Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro pela caridade e a benevolência do Papa Bento XVI. O Rio de Janeiro pôde sediar a JMJRio 2013 graças à sua escolha. Ele mesmo alega em seu livro de entrevista que um dos motivos de sua renúncia era que não teria forças físicas para presidir essa grande manifestação de fé em Jesus Cristo, que levou a cabo seu sucessor, o Papa Francisco. O eloquente testemunho de fé do Papa Bento XVI deve ser continuamente louvado, seguido e reverenciado. Suplicamos ao Senhor da Messe e Pastor do Rebanho que conceda a Sua Santidade, nos seus 90 anos, as graças necessárias para que continue sendo esse belo sinal e exemplo e, com isso, nos ajudando a buscar o rosto sereno e radioso do Senhor Ressuscitado!

Por tudo isso e muito mais, parabéns, Santidade!

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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