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13 de janeiro de 2017

A Igreja fez a opção pelos Pobres?

Em muitos momentos da minha caminhada sacerdotal eu escutei a seguinte afirmação: "A Igreja fez a opção preferencial pelos Pobres, mas Eles não fizeram a opção pela Igreja". Recentemente, ouvi este rumor inusitado e imediato. Isso por causa de uma recente pesquisa que saiu no Brasil com os dados estatísticos do número de pessoas que se declaram católicas em nosso país. Essa não ficou só na questão da pobreza material, à qual enfatizarei nesta reflexão.

A percepção que tenho, a partir das leituras da realidade, com minhas experiências pastorais, tanto práticas como meditativas, o contato com tantos missionários, em cursos sobre a missão, e irmãos advindos de todos os recantos da Pátria Amada, é que ainda, verdadeiramente, “não houve uma opção preferencial pelos Pobres por parte da Igreja”, composta por tantos fiéis batizados. A questão ainda é muita ideológica e politizada. O Papa Francisco, numa das missas na casa Santa Marta, fazendo um comentário do texto de Paulo aos filipenses (2, 5-11), falou magistralmente sobre o rebaixamento de Cristo, e, a partir daí, enfatizou a necessidade de uma “Teologia da Pobreza”. A partir dela, somos chamados a amar o Pobre. Essa opção é cristológica, como assim nos ensinou Bento XVI no seu discurso de abertura da V Conferência de Aparecida. 

Estamos sendo evocados pela Papa a irmos às periferias geográficas e existenciais. Contudo, com desonestidade intelectual, estão sendo dadas justificativas espúrias para não assumirmos a urgente presença da Igreja nas periferias geográficas, dizendo que já estamos nas existenciais. Os Pobres não estão fazendo a opção pela Igreja, porque prioritariamente a Igreja não está permanentemente na vida deles. Percebemos esses sinais em cidades de pequeno porte, mas ainda mais nas grandes cidades. Uma atitude imediata e corajosa que precisa ser tomada, por exemplo, é “a justa distribuição do Clero nas periferias das grandes cidades”. Por que há um maior número de presbíteros nos centros das grandes cidades? Será que é por que lá estão os mais privilegiados economicamente, que claro, são dignos do anúncio do evangelho tanto quanto os mais Pobres? O que está em jogo não é uma luta. Mas, a nossa atenção aos que já são esquecidos. Vendo a radiografia das realidades diocesanas do País, em partilhas com irmãos presbíteros, é clarividente que há uma insatisfatória presença da Igreja nas áreas mais habitadas pela população excluída materialmente nas Grandes Cidades. Poderia citar outros exemplos, contudo permaneço nesse para que meditemos sobre as práticas pastorais falidas, ultrapassadas e burguesas, que estão condicionando a dinâmica missionária das nossas Igrejas Particulares. 

A reforma e a conversão pastoral exigem de cada membro da Igreja este discernimento evangélico. O Papa Francisco está com parresia, ou seja, atento em dizer a Verdade que pode nos levar a essa libertação espiritual. A Igreja vive um tempo de avaliar não as opções dos outros; mas, quais são as suas opções. Ela ainda não fez essa conversão integral aos Pobres; por isso que, pode ser esquecida por eles. A narrativa da opção, em muitas situações eclesiásticas, ainda não é cristológica, mas ideológica. Pois, quem fala dos Pobres, não é pobre, nem está vivendo os sofrimentos e as alegrias dos e com os Pobres. O Papa Francisco tem clareza dessa opção pelo pobre, porque Cristo fez essa experiência do rebaixamento na obediência a Deus, que sempre cuida dos Lázaros da História. 
Por fim, que possamos fazer o nosso exame de consciência e nos perguntar: Será que, como Igreja, fazemos realmente a opção pelos Pobres, ou a nossa fala sobre esta opção continua a ser ideológica e de conveniência? Não foi em vão que o Papa disse: "Quero uma Igreja pobre e para os Pobres". Assim o seja!

Pe. Matias Soares, 
do clero da Arquidiocese de Natal 
Mestrando em Teologia Moral, em Roma

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